Não Fiz Sozinha #1 - Wildest Dreams

14:59:00


A ideia do Não Fiz Sozinha é publicar toda semana um conto isnpirado nas letras das minhas músicas favoritas. E no fim, se você for louco e quiser se torturar um pouco, pode me ouvir cantando um cover estragando a canção. A escolhida dessa semana é Wildest Dreams, do álbum 1989 da Taylor Swift.
Bom conto e boa música!


É engraçado o jeito como o cérebro gosta de nos torturar trazendo sempre as lembranças que mais queremos evitar. Às vezes acho que o meu é expert em stalkear todos os momentos que eu quero esquecer. Mas, dessa vez é tão engraçado que não consigo me conter e caio na gargalhada no meio da cafeteria.

Num ato reflexo, todos ao meu redor se viram para me encarar. Provavelmente procurando o que me fez rir tão histericamente no meio de uma cafeteria lotada. Querem saber por que uma desconhecida acha que algo é importante o suficiente para mudar o curso da vida de pelo menos quinze pessoas nessa manhã infernalmente quente de 13 de dezembro.

Sabe o que eles veem quando olham para a minha mesa? Só eu e a cadeira vazia ao meu lado. A cadeira que você costumava ocupar.

Os únicos que não parecem se incomodar com a minha risada são os garçons. Eles acompanharam de perto o nosso curto e tórrido "romance de verão", que acabou antes mesmo de a estação começar! Vê se pode? Mas o ar de pena deles me incomoda.

Será que eu tenho que rebobinar as fitas das câmeras de segurança para mostrar para eles que 70% do nosso relacionamento era de explosões (as boas e as ruins)? Foi bom para nós e para a estabilidade do universo que o nosso relacionamento (aquilo foi um relacionamento?) chegasse ao fim.
Sabe-se lá o que pode acontecer quando tantas reações químicas acontecem no planeta Terra!

Agora eu estou aqui, sentada no mesmo lugar em que nos conhecemos. Eles ainda têm aquelas brochuras de guias turísticos espalhados por todos os cantos. Estou folheando aquele, esse mesmo que você está pensando: Argentina, conheça e se apaixone. Mas acho que não foi o que você rabiscou no nosso quinto encontro. Será que jogaram fora? Será que você passou aqui antes de mim e levou?

Nem preciso chegar ao capítulo destinado a Bariloche para sentir o frio me abraçar em meio ao calor de 40C°. As suas palavras pairam no ar como fantasmas, ecos de promessas que nunca serão cumpridas. "Vamos viajar, dar o fora dessa cidade infernal e cheia de gente!" A clareza com que ainda me lembro de suas palavras é assustadora.

Eu sabia que a gente ia acabar mal, sabe? Mas nem me importei. Sempre acreditei que pular capítulos da vida para evitar sofrimento é bobagem. E como eu poderia pensar diferente vendo você me encarar com esse sorriso gigante? Um sorriso poderoso o suficiente para curar doenças incuráveis, trazer os mortos de volta à vida e consertar o buraco de ozônio. Isso porque eu nem falei das covinhas ainda.

E sabe, mesmo com toda aquela marra, com movimentos mais precisos que um cirurgião, você me conquistou de tal forma que a única opção era eu me render aos seus encantos.

Mas eu ainda estava consciente do nosso prazo de validade, representado por seis interrogações, uma para cada dígito. E, enquanto eu me fixava em seus olhos brilhantes, sentindo meu corpo cair devido ao novo centro de gravidade adquirido, você sabe qual era o meu único pensamento?

Não, não era sobre o seu incrível corte de cabelo ou sobre como as suas piadas sempre completavam as minhas. Enquanto a gente brincava de redescobrir essa cidade gigantesca, tomando sorvete e dando risada de coisas bobas, meu cérebro cochichava para mim:
Por favor, não deixe que as coisas ruins e amargas o façam esquecer hoje e todas as coisas que acontecerem entre o nosso primeiro e o último beijo.

Será que você consegue? Consegue lembrar do nosso passeio no parque, o vestido que eu estava usando e o jeito como você se prendia a cada sílaba da minha explicação sobre o comportamento migratório dos anfíbios? Quando essa lembrança surge você sente vontade de comer o algodão doce que não encontramos para comprar?

Por favor, me diz que é nisso que você pensa quando se lembra de nós. Não no jeito como todo mundo encarou o nosso relacionamento. Para os seus amigos: a mocinha devoradora de homens, a que vai se cansar de você mais rápido do que uma criança enjoa de seu brinquedo novo. Para os meus amigos: o bad boy que só quer te usar e quando se cansar vai te jogar fora.

Tentamos ignorar, quantas vezes eu disse para você que ninguém tinha que saber das nossas coisas?

Foi rápido, eu sei, mas eu te recebi na minha vida meio que sem saber o que fazer. Quando eu dei por mim você já era presença constante na minha casa. Mais constante que os episódios das séries que eu acompanho.

Desculpe, tenho que fechar os olhos agora. O cérebro stalker quer me levar de volta para os momentos pacíficos. Sua mão me fazendo cafuné nas noites de insônia, a gaveta que você ganhou como prêmio por ter ficado por mais de um mês.
Acho que ainda tenho uma meia sua lá em casa. Você ainda quer?
...
...
...

Desculpe a demora. É que alguém fez um pedido igual ao que você costumava fazer quando vinha aqui. Mas é claro que não era você. É só um desconhecido.

Esqueci completamente de como é a sua voz. Aquele timbre que um dia me foi tão familiar como a voz que fala dentro da minha cabeça. Hoje você fala como o Wagner Moura. Tenho uma paixão platônica por esse ator desde que assisti uma novela das 19h chamada A Lua me disse.

Você ainda lembra da minha voz? Do jeito como eu enrolo os meus cachos na ponta do dedo quando fico nervosa demais, tipo agora. Por favor, diz que lembra, diz que quando voltar a essa cafeteria vai sentar no nosso lugar e rir sozinho. Lembrar de tudo, do ruim, mas, principalmente do bom. Que vai rir histericamente e ser encarado de um jeito esquisito por pessoas mal humoradas.

Você vai?
Tudo bem se não fizer, se não for, se não lembrar.

É só que, perdido no misto de alívio, sofrimento, amor e saudade, nosso relacionamento foi bom. Foi algo que vale a pena ser lembrado mesmo que seja só em sonho. Sonho louco, sonho são, sonho lúcido.
Só não pode esquecer. Promete vai, diz!







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6 comentários

  1. Oi, moça!

    Nossa, adorei a ideia de escrever contos baseados nas minhas músicas preferidas! Geralmente não sei escrever sem música e a maioria de tudo que escrevo - poema, conto, texto sem classificação de gênero etc - é influenciada por isso. Ultimamente tenho ouvido muito algumas novas músicas da Taylor, mas ainda não cheguei a ouvir o CD inteiro. Essa ainda não ouvi, por exemplo, mas fiquei com vontade :) Adorei a forma como você escreveu o conto meio como se fosse uma carta para o parzinho da moça (adoro cartas, então <3). Esse trecho foi o que mais me marcou: "Foi rápido, eu sei, mas eu te recebi na minha vida meio que sem saber o que fazer". Acho que porque pude fazer uma relação real com parte do que venho vivendo no quesito "amor".
    Adorei tudo aqui, parabéns! Voltarei mais vezes, com certeza! :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. <3 Obrigada pelo carinho Nina! Espero que goste dos outros contos também!
      Beijos.

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  2. Que ideia tão original! Muita sorte e Parabéns ***

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  3. A ideia é incrível! e eu amei a meneira que você expressa suas palavras! Muito amorzinho <3 e a música é uma das que ouço sempre! Parabéns pela ideia!
    http://coisadequemle.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada <3 <3
      Toda semana eu posto uma história para uma música diferente.
      Se tiver alguma dica, me fala!
      beijos.

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