Não Fiz Sozinha #3 - I Want You to Know

11:15:00


A ideia do Não Fiz Sozinha é publicar toda semana uma estória isnpirada nas letras das minhas músicas favoritas. E no fim, se você for louco e quiser se torturar um pouco, pode me ouvir cantando um cover estragando a canção. A escolhida dessa semana é I Want You to Know do álbum True Colors.
Boa leitura e boa música!


A mistura perfeita do barulho de chuva e alguns trovões deixava claro para qualquer habitante dessa porcaria de cidade grande que, a noite de sábado, era direito da sra. Preguiça. Roupas velhas e confortáveis, cobertas fofas, algumas cervejas e a companhia constante do meu Xbox. Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
 – Se você não levantar desse sofá agora, eu vou chamar uma carreta de mudança e vou arrastar você para a balada nele mesmo – Bernardo, meu suposto melhor amigo, ameaçou pela terceira vez ao ver que eu não me mexia.
 – Já disse que não estou com vontade de sair Bê. – Nem me dei ao trabalho de desviar o olho da tela quando respondi. Arno tinha uma missão a cumprir em Paris, e só eu poderia ajudá-lo.
 – É sério que você prefere ignorar o seu melhor amigo enquanto joga Assassin's Creed, sábado à noite, bebendo sozinho como um perdedor, Thiago?
 – Eu sou um perdedor.
Nervoso, Bernardo bagunçou os cabelos. Isso era bom sinal, significava que sua paciência estava acabando e que, em breve, ele desistiria de mim e iria para a tal balada sozinho. Normalmente eu não recuso seus convites. Não sou exatamente o Rei do Camarote, mas sair de casa para ver pessoas diferentes costuma ser bom. Eu disse costuma, porque a balada para qual querem me arrastar foi o lugar em que a minha ex-namorada, Júlia, terminou comigo. E, mais importante ainda, é onde ela trabalhava como DJ.
Quase consigo ver a sua cara ao juntar as peças. Pode falar, depois dessa, até você iria preferir passar a noite jogando Xbox.
 – Você deveria ir – Bernardo insistiu tirando o console da minha mão e desligando o videogame.
 – Para ela me olhar com carinha de cachorro triste e repetir na minha cara, que não me ama mais?
 – Não. Para você se esfregar com uma gostosa na frente dela e mostrar que já superou tudo.
Olhei para o meu moletom furado e tentei me imaginar dançando com outra garota, só para me exibir. É. Belo modo de mostrar que não me importo mais com o que a Júlia pensa.
 – Você vai, ou vai ter que escolher outro melhor amigo.
Eu poderia me manter firme na minha decisão. Mas amigo de verdade tá em falta no mercado e, por mais que tenha essa fachada e machão, o Bê é sensível. Se eu dissesse que mesmo assim ficaria em casa ele diria que estou depreciando a nossa amizade.
E agora cá estou eu, na entrada de uma das boates mais famosas de São Paulo, sentindo meus ouvidos sangrarem com a violência da batida da música eletrônica que estoura as caixas de som. Nós mal passamos a catraca de entrada e Bernardo já desapareceu na direção do bar.
Quando eu penso que não tem como a minha noite piorar, um canhão joga gelo seco em cima de mim, me fazendo tossir mais que cachorro velho.
 – Opa! Cuidado aí  – eu escuto uma menina gritar por cima da música segundos antes de esbarrar em mim derrubando todo o seu drink colorido na minha camisa branca.
Ela tinha cabelos crespos cheios como o de uma atriz que eu vi em Grey's Anatomy. Sua pele era negra e, apesar de usar uma dessas sandálias que são mais apropriadas para um campo de batalha greco romano que para uma boate, ela estava deslumbrante. Acho que por isso meu pedido de desculpas demorou tanto para sair.
Se isso tivesse acontecido com Júlia, ela já teria quebrado o copo na pilastra do lado e cravado o caco maior na minha jugular. Uma cena que nem Tarantino seria capaz de dirigir. Mas a menina parada a minha frente apenas gargalhou e disse:
 – Estamos roxos.
Foi quando percebi que, além de estar ao lado do canhão de gelo seco, estava na mira do de luz.
 – Você não está brava?  – perguntei por precaução.
– Claro que não! Eu também coloriria o meu look para combinar com essa luz roxa. – Apesar de seu tom de voz ser sério, alguma coisa em seu olhar deixava claro que ela estava brincando. – Mas eu deixo você me pagar outro Sex on the Beach – ela concluiu, me guiando em direção à multidão que se acotovelava na frente do bar.
– Desculpe mais uma vez – disse entregando o novo drink para a garota. – geralmente eu sou mais cuidadoso.
– Quem se importa? – ela perguntou antes de dar um grande gole na bebida e me puxar para a pista de dança. – Qual é o seu nome? – ela gritou.
– Thiago – respondi enquanto me deixava levar por ela e pela música. – E o seu?
– Camila.
Ao ver que ela tinha fechado os olhos para curtir a batida da música tentei imitar, mas a tentação de observar seus traços foi maior. Ela parecia tão leve, tão feliz, que era impossível ficar na fossa por muito tempo. Júlia que se acostumasse a ideia de me ver dançando.
Engraçado como um simples convite consegue causar esse tipo de relação em cadeia.
Convite > Fumaça> Garota> Luz> Dança> Sorriso> Felicidade.
Enquanto nós dançávamos uma música que eu nunca tinha escutado na minha vida, senti o calor da boate agitar meus átomos e moléculas. A cada nova canção, seguida por uma coreografia ridícula, era como se meu corpo se fracionasse e se desprendesse de mim. A cada segundo eu era menos meu, menos da Júlia e mais da Camila.
Por enquanto eu só queria me preocupar em curtir, mas nessa uma hora que passamos juntos, eu já sabia que na manhã seguinte, eu acordaria de ressaca e com o coração partido.
Olhei por cima das cabeças dançantes, tentando avistar Júlia. Não queria que ela pensasse que eu sou o babaca que vem se mostrar com uma garota bonita agora que tudo acabou. Mas ela está concentrada em seu set e no cara musculoso que de vez em quando para para beijá-la.
Se alguém tivesse me contado isso enquanto eu jogava Assassin's Creed, eu provavelmente teria aberto o berreiro. Mas aqui, no olho da tempestade, me sinto calmo e protegido. Só espero que ela também se sinta assim ou, se não, que minta e esconda a sua raiva infundada com um sorriso falso quando perceber que estou aqui embaixo com a Camila.
Ofuscando meus pensamentos, o canhão de luz roxa atingiu minha parceira de dança e eu. Nossos passos de dança seguiam o mesmo ritmo, o mesmo caminho pela multidão. Éramos uma força da natureza movida a Moonwalks, Monster Paws e chacoalhadas de quadril.
Eu nunca vou dizer isso para o Bernardo, mas nem ligo se a Camila não ficar comigo hoje. Quer dizer, não me leve a mal, é claro que quero ficar com ela. É só que, se alguém tão divertido e incrível, com toda essa energia, te elege parceiro de dança em uma noite em que você se sente um merda... porra, é muito legal. E ok, sou péssimo nessa coisa de dançar, mas ela nem liga. Enquanto nos mexemos, Camila me elogia e debocha de gente a nossa volta que é muito melhor que eu. Acho que ela é daquele tipo de pessoa que faz com que você se sinta bem dentro da própria pele. Ou até melhor do que realmente é!
Ela ainda não perguntou porque eu fico olhando para o palco o tempo todo, acho que já percebeu a tempestade de sentimentos que se passa aqui dentro. Mas, pelo menos hoje, ela escolheu não se importar. Hoje somos dois estranhos que precisam da companhia um do outro para extravasar. Somos energia, somos drinks e luz roxa.
Nossos passos de dança seguiam o mesmo ritmo, o mesmo caminho pela multidão e, hoje à noite, isso é tudo o que importa.




Leia também:

Não Fiz Sozinha #2 - What's Up

Não Fiz Sozinha #1 - Wildest Dreams


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2 comentários

  1. Adorei a história. Super combinou com a música!

    Virando Amor

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    1. Obrigada Carol! <3 Fica ligada por aqui que toda semana tem uma nova.
      Beijos!!

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