Não Fiz Sozinha 7# - Viva la Vida

11:12:00

A ideia do Não Fiz Sozinha é publicar toda semana um conto isnpirado nas letras das minhas músicas favoritas. E no fim, se você for louco e quiser se torturar um pouco, pode me ouvir cantando um cover estragando a canção
Essa semana em especial, o texto publicado é um trechinho do livro no qual estou trabalhando atualmente. <3
E a música que acompanha não poderia ser outra se não Viva la Vida , do álbum de mesmo nome, do Coldplay.

Eu estou apaixonada por estes personagens. Espero que vocês também gostem!

A FORMATAÇÃO TÁ DOIDA PQ O BLOGGER É DOIDO E EU TÔ COM PREGUIÇA



O fim da década de escuridão
Depois da Batalha do Mau Agouro.
É irônico discutir as perdas de uma guerra em um castelo protegido por muralhas que nunca testemunharam uma gota de sangue sequer. Meu pai, e seu pai antes dele, queimariam as florestas matando todas as tropas (mesmo que isso significasse sacrificar os nossos), levariam as batalhas para as cidades mais próximas, mas nunca deixariam o massacre se aproximar de nossa fortaleza.
Nunca deixe a sujeira chegar no seu tapete” eles justificariam depois de bombardear uma área residencial que estava sendo usada como rota até o palácio.
Todas as ordens de ataque e saque tiveram sua origem em um mesmo lugar: na sala de guerra. Não consigo entender o porquê de usar um lugar tão rico para trazer tanta miséria e destruição. Este cômodo sozinho possuía mais ouro e pedras preciosas do que grande parte do meu país.
Meu país.
Meu pai, Thorsten II, não temia a morte. Foi a sua coragem e, talvez, a febre da meia idade que o levaram ao campo, onde sua ansiedade nos trouxe a vitória, mas o ferimento de uma bala lhe premiou com a morte.
– Pai? – era difícil olhar para a minha pequena Amélie sem sentir o fardo sobre meus ombros pesar mais um pouco.
A tarefa de pai se tornou muito mais pesada agora que o meu número de filhos ultrapassava os duzentos mil, e alguns, conseguiam ser mais manhosos e desobedientes que a minha pequena princesa de sete anos de idade.
– Pai! – ela insistiu, pulando em meu colo e puxando meu rosto pelo queixo, exigindo atenção. Ela só se aquietou quando nossos olhos castanhos se encontraram. Único traço meu que ela havia herdado. Os cabelos ruivos, cacheados e volumosos, assim como as sardas e o sorriso contagiante, pertenciam à minha esposa, a rainha Aylee.
Era engraçado, mas mesmo tão nova e sendo a sexta na linha de sucessão do trono, minha Amélie tinha mais força de vontade e talento para governar que todos os seus irmãos somados. Sempre se fazia atender, até quando o certo seria ignorarmos os seus desejos.
Mas, infelizmente, a guerra (ou mesmo o pós-guerra) não dá a um rei tempo para atender aos caprichos de sua garotinha.
– Alteza? – General Verräter me chamou de volta a realidade, indicando minha filha com a cabeça. Era hora de tirá-la de cena.
Com paciência, coloquei-a de pé e ajoelhei para que ficássemos do mesmo tamanho.
Peça a babá para te levar até a sua mãe e irmãos. Diga-lhes que tenho alguns detalhes a acertar com nosso Ministro de Guerra, antes do jantar. – Apesar de um pouco mimada, Amélie sabia quando devia me obedecer. Abaixou a cabeça mostrando-me sua reprovação e seguiu seu caminho.
Assim que ficamos a sós, General Verräter fechou as portas da sala de guerra e se voltou para mim.

Sim Verräter?

Eles estão prontos para assinar o tratado de paz. – Verräter franziu tanto a testa quando disse isso que tive que me controlar para não cair na gargalhada.

E você é contra. – Ver nosso General e Ministro de Guerra corar era um feito raro, mas que eu já havia presenciado algumas vezes ao longo de nossos mais de trinta anos de amizade. – Ora, não se acanhe Koen. Você sabe que é muito mais que um Ministro de Guerra para mim. Somos melhores amigos, quase irmãos. Sua opinião é de muito valor para mim e para o meu reino.
Quando Koen finalmente conseguiu erguer os olhos das botas para me encarar ele parecia preocupado.
Com todo respeito majestade, conheço a sua inteligência, mas também testemunhei sua ansiedade e sua teimosia. Não se deixe enganar pelos tolos que querem governar por você. Leia mais uma vez o documento, exija as alterações que forem necessárias e faça o que nem seu avô, nem seu pai fora capazes de fazer: salve-nos da ruína.
É tudo o que eu mais quero, meu amigo.
Tudo o que eu queria era que, meus ministros e secretários compreendessem que a guerra acabou, mas não por decisão ou vitória nossas. A morte de meu pai era tudo o que nossos inimigos precisavam para que um novo rei, mais condescendente assumisse para estenderem a bandeira branca com um tratado de paz audacioso fincado na ponta.
E nós precisávamos daquela paz, agora mais do que nunca.
O conselho está pronto para recebê-lo alteza.
Em silêncio, seguimos até a antessala em que meus ministros e conselheiros reais esperavam por mim.
Quais são as notícias Magnus? – o olhar do encarregado de cuidar do tesouro nacional cortava mais fundo que as lâminas de mil espadas. Ele encarava minhas perguntas frequentes como falta de confiança.
Nossos campos foram devastados pelas tropas francesas e espanholas. Conseguimos controlar o fogo e neutralizar o efeito das bombas químicas, mas sessenta por cento de nosso solo está morto. Ainda não tivemos tempo de obter o resultado das análises de nossos rios. Mas a situação não parece animadora.
O que Magnus está tentando dizer vossa alteza, é que nossas terras são improdutivas, nossa água envenenada e nossa população faminta. – frisou Rolf, o Secretário Nacional da Defesa Civil.
Os estrangeiros são o problema! – esbravejou o general Bernt. – Eles e as putas, que conseguem desvirtuar os nossos trabalhadores com um simples abrir de pernas. Esse país já tem distrações demais.
Talvez seja a hora de as camadas privilegiadas começarem a contribuir com a nossa sociedade, não? – para mim era a opção mais clara. Muitos nobres e até mesmo algumas socialites desconhecem o significado da palavra trabalho. São um peso morto para o estado e para os nossos famintos. Se têm mais, por que não podem contribuir mais?
Eu digo que devemos fechar todas as escolas e hospitais públicos que sobreviveram aos ataques. Burros de carga não precisam de cuidados ou de educação.
Edith, você escutou o que acabou de dizer? – O choque e a raiva se reviravam ácidos em meu estômago, nublando a minha visão e embaçando o meu julgamento. – Diga-me que a minha Ministra da Educação não disse isso.
Perdoe-me vossa alteza, mas eu vivi e vi muito mais desse país que você. Nós precisamos nos livrar dos estrangeiros e dos pesos mortos desta nação.
Essa foi a única solução que o meu conselho conseguiu apontar para mim depois de dez horas de reuniões a portas fechadas?
Acalme-se Charles – Koen sussurrou. – Ouça o que eles têm a dizer, acalme-se e pondere. Agora, você é o rei.
Koen olhava deles para mim, perdido. Parecia que tinha medo do que eu poderia dizer nesta reunião. Mas de certa forma, ele estava certo. O tempo para explosões tempestuosas causadas por meu gênio incontrolável tinha chegado ao fim.
Você escolheu acabar com a guerra, alteza – Surpreendentemente, Norma, a ministra de relações exteriores, não parecia nada contente com a minha escolha diplomática.
Esse castelo não seria nada além de uma pilha de cinzas se eu não tivesse concordado com isso, e vocês sabem disso. Vejo em seus olhares que sabem.
Talvez – Magnus começou – mas agora precisamos que você conserte o estrago começado por seu avô.
Um fato que todos parecem gostar de me lembrar.
Vocês pensaram em mais alguma coisa?
Encarei os onze rostos das mulheres e homens que, supostamente, deveriam me aconselhar, me ajudar a fazer o que fosse melhor para o meu país. Eles olhavam fixamente para mim, e em seus olhos havia apenas o vazio. Eles não faziam a menor ideia de qual deveria ser o meu próximo movimento.
As Nações Unidas se pronunciaram? – perguntei diretamente para Koen.
Eles disseram que só cogitarão nos ajudar depois que assinarmos os devidos tratados e nos mostrarmos verdadeiramente comprometidos a manter a paz.
Eles não acreditam em nós. – Isso só dificultava as coisas para mim. – Bom, se vocês não têm mais nada a me dizer, eu vou me retirar. Serão informados assim que eu tiver um posicionamento a respeito do tratado.
Alguém mais orgulhoso se recusaria a ir além do primeiro parágrafo das exigências de Inglaterra, França, Itália e Espanha. Mas eu era humilde o suficiente para ser grato ao fato de nossa rendição ter sido aceita por todos antes que fôssemos bombardeados pelos Estados Unidos. Seríamos dizimados com a mesma facilidade que uma criança esmaga uma formiga.
Não gosto de ver esse olhar no seu rosto.
Só percebi o percurso que meus pés fizeram automaticamente quando escutei a sua voz. Era engraçado como o meu coração sabia exatamente de quem eu precisava em momentos como este.
Aylee – seu nome saiu como uma súplica, porque ela era exatamente o que eu precisava. – Eu não sei o que fazer.
Sabe sim, por isso você está tão preocupado – ela disse me acolhendo no melhor abraço do universo. Não me admira que nossos filhos briguem por um desses. Seus abraços são poderosos. – Sabe que o que tem que fazer não vai agradar aos seus aliados.
Eles querem que eu expulse os estrangeiros, que feche as casas noturnas e incendeie os bairros boêmios. Ah, e querem que eu burle as normas do tratado. Idosos, deficientes. Se pudessem, arderiam em uma fogueira agora mesmo.
Quais são as exigências do tratado? – Aylee perguntou enquanto me servia uma xícara de chá.
A suíte real era tão grande que mais parecia um pequeno apartamento inserido dentro do castelo. Se eu quisesse, poderia passar meses sem sair do meu quarto. E foi exatamente o que Aylee e eu fizemos quando retornamos de nossa lua de mel.
Algo impensável para um príncipe prestes a se tornar rei, não é mesmo? Acontece que, naquela época, meus irmãos Klaus e Wagner estavam a minha frente na linha de sucessão. Mas isso foi há muito tempo. Antes de meus irmãos serem enviados para morrer em conflitos armados e de minhas irmãs serem vendidas a troco de alianças que nunca saíram do papel.
Eu seria o último Eine der Versucht a governar, mas antes eu salvaria o meu país.
Querido? – Aylee chamou, me trazendo de volta ao presente.
Desculpe, me distraí. No tratado eles exigem cinquenta milhões de dólares em indenizações para os países que nós atacamos. Eles também querem a dissolução de setenta por cento de nossas forças armadas e a libertação de nossas colônias na África.
Para que eles os escravizem e roubem seus diamantes?
Não seria muito diferente do que o meu pai fazia – concluí antes de dar um gole em meu chá. – Eu vou aceitar. Vou vender as nossas propriedades para pagar o tratado e aumentar os impostos dos mais ricos para restaurar o que a guerra destruiu. Assim que a nação estiver forte novamente, nossa família se verá livre do fardo da monarquia e eu ajudarei a instituir a república.
Ao fechar os olhos eu conseguia ver perfeitamente o futuro do meu país. Um lugar onde todos os cidadãos teriam chance de prosperar e voz para escolher por quem seriam governados. Era o meu sonho, o nosso sonho.
Sem que eu pedisse, Aylee me deu mais um de seus abraços miraculosos (dessa vez curto demais), me puxou pela mão e me levou até a passagem que conectava nosso quarto aos de nossos filhos: Verick de quatorze anos adorava se aventurar pelas florestas que ficam em volta do castelo. Chegava sempre tão cansado em casa que, muitas vezes, ia para cama sem nem mesmo jantar.
Louise, de doze anos, se revirava em sua cama, parecia tão aterrorizada quanto eu. Ela passava sua última noite em casa, amanhã, antes do primeiro raio de sol ela estaria em um avião rumo à Espanha. Lá ela moraria em um colégio interno até ter idade suficiente para se casar com o neto do Rei Felipe VI.
Gustav e Gerdy, já não moram mais conosco. Foram os meus primeiros a serem oferecidos para matrimônio em troca de aliança. Eu me odeio por ter feito isso com eles, me odeio ainda mais por insistir em fazer isso com Louise. Mas enquanto a monarquia reger o meu país, minha família deverá servir aos meus súditos.
Assim que entrei no quarto de Amélie, percebi que ela ainda estava acordada. Apesar de tentar permanecer imóvel, seus pezinhos se mexiam, e ela tentava me espiar por entre a frestinha de suas pestanas.
– Princesinhas não devem ficar acordadas até tão tarde – sussurrei enquanto ajeitava suas cobertas e lhe dava um beijo de boa noite. – Tente dormir está bem?
– Sem história? – sua voz soava pouco acima de um sussurro.
Me sentei no chão ao lado de sua cama e, enquanto fazia cafuné em seus cachos bagunçados, contei a nossa história favorita.
Há muitos anos, em uma época em que a lei se escrevia com o sangue derramado por espadas, havia uma princesinha amaldiçoada. Primeira na linha de sucessão ao trono, o nascimento da princesa Susanne foi considerado por muitos no reino uma maldição. Isso porque, de acordo com as leis daquela terra, Susanne, e apenas ela, estaria apta a ascender ao trono quando seu pai morresse.
Mas ao ver a pequena Susanne se revirar em sua manta, chorando a plenos pulmões, implorando à sua mãe por mais leite, se convenceram de que no dia em que o rei Cristof morresse levaria sua nação junto com ele. Afinal, como punhos tão rosados e delicados podem ter força para governar uma terra tão vasta?
O medo os levou a cometer uma atrocidade. Com um plano ardiloso a população conseguiu colocar a feiticeira mais perigosa do mundo no mesmo quarto que a pequena princesa. Com cuidado, a feiticeira segurou o dedinho da menina e murmurou:
Que a infância em você morra e que a juventude em seu peito floresça.
Que aquilo que te faz fraca morra, desapareça.
Essa casca já não é mais sua. Nem carne tenra, nem pele rosada.
Enquanto no céu houver sol, serás um monstro. Mas quando banhada pela lua serás desejada.
O poder das palavras sussurradas evocou uma névoa roxa que a pequenina aspirou quando chorou. Mas aos poucos, seu choro foi mudando, seu corpo foi crescendo. E quando a ama entrou no quarto, em vez de um bebê chorão, encontrou uma moça nua e assustada.
Amélie ainda estava escondida debaixo das cobertas, quando uma batida na porta interrompeu a nossa história. Era Koen.
Terminamos amanhã? – perguntei enquanto a ajeitava na cama. – Prometo que volto para salvar a princesa.
Amélie achava que quando abandonávamos uma história na metade, aprisionávamos seus personagens naquele trecho para sempre.
– Sim papai.
– Não demore muito com Koen – Aylee me disse antes de me dar um beijo casto nos lábios. – Reis também têm que dormir cedo. E você terá um pronunciamento importante amanhã.



A última madrugada do dragão


Sei que não deveria, mas me sinto um monstro por tirar Charles dos aposentos da princesa Amélie. Ele parece tão feliz, tão calmo… O rei Thorsten II, foi enterrado há poucos meses, mas desde sua morte, Charles já não tem o mesmo tempo que tinha para sua família. E, por mais que ele tente esconder, isso o enfraquece.
O amor que ele tem pelos seus é a sua fraqueza, e isso não passa despercebido por ninguém.
– Eu sei que você está assustado Koen – ele começa enquanto me conduz até o escritório em sua suíte. – Não se preocupe, já tomei a minha decisão e sei que é a mais sábia.
A mais justa com certeza, a mais sábia? Nunca.
Apesar de estar claramente morrendo de medo, um sorriso orgulhoso ainda consegue aparecer no rosto do rei.
– Eles ficarão insatisfeitos – tentei argumentar. Mas sei que Charles não vai me ouvir. É claro que a única parte monarca em seu corpo são as orelhas. Só escutam aquilo que querem.
– Eles não terão que me aturar no trono por muito tempo. Você sabe que esse é o meu desejo.
Ergui meu rosto até que nossos olhares se cruzassem. Como pode um homem envelhecer dez anos em quatro meses?
– Sim, conheço o seu desejo.
Cruzar os corredores do castelo até a antessala onde eu era aguardado pelo conselho real foi mais fácil do que deveria ter sido. Minhas pernas não travaram, meu cérebro não me tentou com rotas mais longas. Eu simplesmente cumpri o meu dever e fui.
Acho que o meu senso de dever e a noção de que o meu país merece um governante mais forte impediram que meus sentimentos em relação a Charles nublassem o meu julgamento. Eu estava fazendo aquilo que seria o melhor para o meu país.
– General Verräter? – Magnus chamou no instante em que eu fechei a porta atrás de mim.
– Ele vai deixar o posto… – minhas palavras fizeram um sorriso brotar no rosto do secretário. – Mas creio que as coisas acontecerão do jeito que esperamos.
– Ele terá a sua última chance amanhã.
– Sim, ele terá.
Quando finalmente retornei aos meus aposentos estava ansioso demais para dormir. E eu tinha certeza de que não era o único desperto. Era como se a consciência dos demais assombrasse os corredores, preenchendo o ar com angustia e sofrimento.
– Koen? – a voz da rainha Aylee soou do outro lado da porta.
– Alteza – cumprimentei com uma leve mesura.
– Não seja bobo, somos amigos. – Ela se sentou na beirada da cama e puxou as minhas mãos para as suas. – Eu preciso te pedir um favor, Koen.
– Qualquer coisa. – Respondi sem hesitar.
– Proteja a minha família. – Ela buscava os meus olhos, desesperada como se o pior já tivesse acontecido. – Charles é ingênuo demais, mas eu consigo sentir a tensão no ar. Ouço os sussurros dos traidores. Garanta-me que Louise vai chegar em segurança na Espanha e quando o pior acontecer…
– Se o pior acontecer. – Corrigi.
– Quando o pior acontecer, cuide de Verick e Amélie. Leve-os para longe de tudo isso e cuide deles como se fossem seus.
É difícil, mas consigo controlar o riso histérico que começa a nascer dentro do meu peito. Aylee agia como se soubesse exatamente o que estava prestes a acontecer, e talvez até certo ponto soubesse, mas algumas de suas suposições eram cômicas.
– Eu seria um péssimo pai, não seria capaz de lhes dar a boa vida a qual estão acostumados.
– Pelo menos eles terão uma vida.
O pesar na voz de Aylee percorreu o meu corpo provocando um arrepio na minha espinha. Ela não estava assustada, nem em choque. Estava conformada, e se preparava para aceitar o que quer que estivesse por vir.
– Eu prometo que não vou descansar até que Verick e Amélie estejam a salvo. – Isso pareceu tranquilizá-la, mas Aylee só partiu quando me ouviu proferir as seguintes palavras: – colocarei Louise dentro do avião com a proteção de meus melhores homens.




Felizmente, cumprir a minha promessa para a rainha Aylee só seria possível se eu me aprontasse imediatamente para o dia seguinte. Isso me poupava das horas perdidas fingindo ter esperanças de pegar no sono.
– Acorde Louise, o jatinho já está pronto para levá-la até a Espanha.
Com preguiça, a menina esfregou os olhos e apontou para o despertador enquanto bocejava.
– Minha partida está marcada para daqui a duas horas.
– Por medidas de segurança, você será escoltada imediatamente, e Verick a acompanhará.
Saber que o irmão mais velho partiria com ela pareceu restaurar o ânimo que ela havia perdido nos últimos dias. De um pulo, Louise pegou a roupa que tinha separado para vestir e correu para o banheiro. Meia hora depois Aylee, Charles, Amélie e eu, acenávamos animadamente da janela do aeroporto.
Os dois estavam a salvo.
Pelo menos uma parte desse acordo seria cumprida.




O restante da manhã passou mais rápido do que eu gostaria. Foram apenas algumas horas, mas, ao mesmo tempo, sinto como se anos já tivessem passado.
Agir como se aquele fosse apenas mais um dia na corte não ajudava em nada.
– Esse café da manhã é realmente necessário, Charles? – Em vez de me responder, ele utilizou suas orelhas de monarca para focar toda a sua atenção na pequena princesa Amélie.
Ele se agarrava à única filha presente na corte como o náufrago se agarra a corda de salvação. Sorria e brincava com ela enquanto todos nós éramos vigiados por olhares ferinos.
Charles parecia incapaz de perceber que, com uma refeição extremamente simples, mandava a sua mensagem para os ricos da corte:
Goste ou não, as coisas por aqui começaram a mudar.
E como eu esperava, eles não pareciam nem um pouco satisfeitos com o recado.
Os que se sentavam próximos à mesa da família real mantinham seus narizes enfiados nos pratos. Se abaixassem a cabeça mais um pouquinho, eu tinha certeza de que se afogariam no mingau fedido.
Já os que estavam no outro extremo do salão, exibiam caretas tão azedas que por pouco não talhavam o leite.
– Avise a Charles que o auditório está pronto para recebê-lo. – Magnus deu a notícia o mais rápido que pôde e se afastou com o nariz franzido, como se o fedor da humilhação de seus companheiros fosse demais para ele.
O rei não partiu imediatamente, mas quando ele se dirigiu para a sala onde seria dado o pronunciamento, Aylee e Amélie era as únicas mulheres vistas circulando no castelo. Nem mesmo as criadas e convidadas de honra eram vistas andando pelos corredores.
Uma observação mais atenta também me mostrou que o número de guardas havia sido reduzido drasticamente.
– Vá com seu tio Koen – Aylee praticamente jogou Amélie em meu colo, um olhar desvairado passando-se rapidamente por seu rosto. – Seu pai e eu a encontraremos mais tarde, assim que toda chatice aqui terminar. – Antes de dar um beijo na testa da filha, a rainha tirou um medalhão em forma de dragão e colocou no pescoço da garota.
Revirei os olhos porque sabia que ela não veria.
Que espécie de poder Aylee achava que aquele medalhão patético daria a sua filha? Aquele ouro representava uma maldição, não uma benção. E logo todos saberiam porquê.
Charles passou por nós sem olhar para trás e seguiu concentrado para o auditório. Eu não precisei entrar para sentir o calor que emanava do interior. Calor gerado por todos os holofotes e pessoas que ofereciam algum tipo de assistência a ele.
Talvez um pouco de ódio e ressentimento devessem ser acrescentados à lista.
Esperei até que minha voz estivesse apenas ao alcance dos ouvidos de Amélie para me dirigir a ela.
– Você é uma garota boa. – Ela assentiu positivamente, mesmo que eu não tivesse feito uma pergunta. – Garotas boas ficam em silêncio enquanto os adultos resolvem seus problemas. Posso confiar que você será uma garota boa?
– Sim. – Sem chorar ou piscar, Amélie se comportou como Aylee teria se estivesse em seu lugar. Em seus sete anos de sua existência, Amélie nunca havia soado tão real.
Sem pressa, desci três lances de escada, virei dois corredores a direita e encontrei a tapeçaria com a árvore genealógica dos Eine der Versucht. Todos os nomes que destruíram o nosso país, do primeiro beberrão ao altruísta, seguido por sua esposa e filhos. Em poucos instantes os dragões não seriam nada além de fumaça e cinzas.
Amélie apertou seus braços e pés ao redor do meu corpo com mais força, me machucando com seu ímpeto de permanecer em meu colo.
É engraçado como que as crianças, mesmo sem fazer a menor ideia do que está por vir, sentem quando algo extremamente ruim vai acontecer. Como se eles ainda conservassem aquele instinto animalesco que grita em seu cérebro quando você sabe que deve correr.
– Saia do meu colo Amélie.
Como um fantoche encantado, primeiro seu corpo ficou tenso e, uma vez resignado, cumpriu as minhas ordens.
Quando encarei seus olhos com vida pela última vez, seu rosto estava tão pálido que suas sardas se destacavam como estrelas em uma noite de céu aberto.
– Boa noite, princesa Amélie – foram as últimas palavras que ela escutou antes que eu a atingisse na cabeça.
Antes que ela desmanchasse no chão como uma boneca sem vida, depositei seu corpo dentro da passagem secreta atrás da tapeçaria. Eu poderia lidar com ela uma outra hora.
Quando voltei para o auditório as câmeras estavam ligadas e Charles e Aylee devidamente posicionados. Fiquei de frente para eles, perfeitamente ciente de que não conseguiriam me ver com tanta luz e teleprompteres para distraí-los.
Os equipamentos estavam montados, mas a luz que indicava que o programa estava sendo transmitido jamais seria ligada.
Esperei até que o plano de Magnus fosse posto em ação para me movimentar. Charles estava tão distraído com o discurso em seus cartões que não percebeu nada até o último segundo. Quando parei ao lado dele, ele ainda sorria sussurrando as palavras do que havia escrito:
Para que nossa nação torne a prosperar, é imprescindível que sacrifícios sejam feitos.
Timing é uma coisa realmente engraçada, não é mesmo?
Observá-lo falar, se mexer e até mesmo sorrir com tanta convicção me dava um pouco de vontade de rir. Meu amigo sonhador realmente acreditava que seu plano seria capaz de salvar um país tão grande e tão desgraçado.
Coitado.
– O que você está fazendo aqui Koen? – ele me perguntou enquanto o sorriso morria aos poucos em seus lábios. – Onde está Amélie?
Não precisei responder suas perguntas. Conforme eu marchava em direção a rainha, guardas e civis brotavam de todas as entradas, esbarrando em tudo como um bando de bestas furiosas, ou um enxame de vespas venenosas. Eles vinham em minha direção, não para impedir o que eu estava prestes a fazer, mas para fazê-lo antes de mim.
Corri até Aylee, chegando até ela antes das vespas e bestas.
– Por favor, você prometeu. – Ela implorou enquanto chorava. – Amélie…
– Eu prometi.
Me pegando de surpresa, Aylee usou o peso do próprio corpo, girando nós dois até que ficássemos de frente para Charles. Ela não queria escapar, só queria se despedir.
– Saia já daqui! – a rainha urrou, como se seu medo pela vida dele lhe provocasse dores físicas.
– Não faça isso Koen! – O rei caiu de joelhos aos prantos como uma criança birrenta. Mas mesmo chorando e implorando ele sabia que seus desejos não seriam atendidos. Por isso, fechou os olhos e se despediu: – Aylee, eu te amo.
Sem piscar, saquei a faca que ficava em meu coldre e enterrei-a na jugular da rainha. Charles caiu no instante em que o corpo sem vida de sua amada atingiu o chão, como se ambos estivessem conectados por uma espécie de fio invisível.
– O que faremos com ele Magnus? – desviei meus olhos de todo sangue e confusão. Não queria correr o risco de ter de encarar Charles nos olhos enquanto planejava a sua morte.


 – O carrasco está esperando na praça com toda a equipe de filmagem. Você conhece o roteiro, sabe que história contar para as câmeras. – Sem hesitar, Magnus entregou uma espingarda na minha mão. – Tente causar mais estrago e sujeira nesse aí, estamos tentando passar uma mensagem com essas mortes – ele completou chutando o braço de Aylee ao passar.

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